Solidão
Silêncio, silêncio e eu só escutava o barulhinho Tic-tac... Tic-tac... Tic-tac. Irritante, contínuo, afetava diretamente os meus tímpanos delicados.
Uma das mãos pequeninas com as unhas grandes, batiam sutilmente na mesa de mármore daquela colossal sala de jantar. Á meia luz tudo era tão mais claro naqueles pensamentos que antes pareciam absurdos, os olhos na cor azul fixaram na parede *texturada* em tom verde bebê.
A cabeça rodando ordenou-me para pegar a taça de vinho tinto suave e manchar aquilo tudo, e assim o fiz. O vinho escorreu pela parede, misturando-se a textura enquanto os cacos de vidro da taça se estilhaçavam em câmera lenta na minha frente e de repente caíram-se ao chão, tão frágeis. Sentei-me novamente com o corpo pesado, levando a mão direita até o rosto, acabei apoiando a cabeça nela e fiquei sem palavras, as emoções já não estavam mais em seus devidos lugares. Num ato inusitado bati a cabeça na mesa, descontando a raiva, obsessão, indiferença naquele instante, e lá a deixei exposta.
Algo me faltava, aquele vazio me tocava fundo, precisava recuperar aquela dádiva em minha vida. Ali, estirada igual um gato sem dono, recordações vieram à tona, coisas que jamais pensei em lembrar, mas vieram, e agora me feriam como uma faca no peito. Cenas, palavras, canções e poemas. O vento entrou pelo vão da janela aberta, a cortina balançou alguns porta-retratos na mesinha de centro, e elas caíram com o sopro forte daquela noite, alguns pingos de chuva dava para escutar.
A garoa então deu as caras naquele anoitecer, mexeu comigo de certa forma, fiquei fissurada como ela agia tão tranquila, como se tivesse cantarolando em minha vidraça, aquele som terno e musical... Quando vi lá estava naquela garoa fina e suave, que tocava o meu corpo com os braços abertos, recebia-a plenamente para que penetrasse até mesmo na minha alma obscura e atrapalhada. Meus olhos percorreram rapidamente a altura que estava (por se morar no último andar, pode se usufruir desse luxo, apreciar o belo luar, a cidade reluzente), como era tudo minúsculo dali.
A garoa se firmou, mas ainda assim ora forte, ora leve, passei a senti-la como se uma pétala estivesse me tateando em busca de um lugar para se acomodar. Meu sorriso saiu livre e um suspiro abafado logo em seguida. Vi-me nua envolta de uma chuva de rosas cristalinas que queriam me purificar, entreguei-me de coração ao prazer que me proporcionei, talvez estivesse realmente precisando daquele clima angelical. Molhada, senti o vestido de seda curto colando ao corpo, estava sem sapatos e meus pés ensopados e sujos com a água que batia ao levantar o pó; Naquele momento não me preocupei com isso. Seria aquela noite de chuva, aquele banho delicioso e divino, um aviso? – Deveria de ser, haveria de ser. A garoa cessou, mas o vento forte retornou soprando aquela melodia que somente ele tinha o dom de possuir.
Naquela noite quis deixar a janela aberta e desfrutar do crepúsculo, da brisa que batia levemente no meu rosto, da garoa que me mostrou a liberdade, o encanto e a pureza. Pensei em mim, pensei nele... Em nós e foi quando a tristeza voltou a me atormentar. Era isso que me faltava – simplesmente ele. Meu homem, meu amor... a minha paixão e então, percebi que além da minha síndrome de possessão, havia também um lugar imenso ocupado para a solidão.
"Sem você percebi que nada sou, que não existe história sem ter uma verdade, sem lutar por um alguém que te faça sorrir, absolutamente você representa tudo pra mim. As estrelas, o céu, a areia do deserto, a água do mar, dentre outros tantos romantismo poderia citar, mas que diferença faz, se o que quero dizer é que o meu amor ultrapassa qualquer obstáculo.
Agora posso notar o quão a sua presença me causa melancolia, me perco neste breu sem fim. E é o brilho do seu olhar que me abre as portas para a claridade que preciso. Infelizmente você não está aqui, não agora, não pessoalmente, porém preso dentro das minhas histórias e principalmente tatuado no meu coração. A noite está caindo e o meu amor não vem.
Eu já sabia por tê-lo magoado como de costume. Mais o que posso eu fazer diante de um desentendimento que me causou uma vida de felicidades? Pedi desculpas, mais as minhas palavras foram ecoadas às quatros paredes, e você sempre manteve mais a calma que eu, não é mesmo? - Sempre se deu melhor na relação por manter essa plenitude de paciência.
Eu não me vejo sem você, é difícil eu lidar com isso, admito a quem queira me escutar e não me envergonho. Mais cadê você que não está? - Ah, claro! Você saiu e trancou a porta levando a chave consigo, deve estar num bolso qualquer da calça. E enquanto estava nervosa, abri a garrafa de vinho depois da sua partida e cuidadosa enchi uma taça de cristal ao qual degustei somente a metade, o resto vorazmente atirei contra a parede da sala.
Meu corpo clama pelo seu, mas dessa vez parece que você se foi para sempre, me deixando aqui sozinha. Só que tudo ocorreu de maneira distante, desta vez não vou correr mais atrás, está na hora desse homem expor os sentimentos para fora, falar alto o que sente, deixar fluir naturalmente o amor que há de ter aí no fundo dessa figura amargurada e que me tanto fere tantas vezes.
Se ainda me ama faça valer a pena, me encante, me ame, faça-me ser somente sua mulher. Não sei mais como agradá-lo, não sei mais qual o começo e qual é o fim, não sei de mais nada.
A única certeza que tenho é que eu te amo e te quero pra sempre aqui do meu lado.
Corre! A chuva apertou... E eu estou com frio agora, irei me enrolar no edredom e dormir no nosso sofá hoje.
O vento soa bem quando estamos mais relaxados e as cores estão voltando, amanhã é outro dia e eu sei que você vai sentir a minha falta também. Só falta você agora...... Você vem?"
- Diga que vem.
Não espere eu ir embora para que possa sentir a minha falta. [...]
- Diga que vem.
Não espere eu ir embora para que possa sentir a minha falta. [...]

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