A música ecoou de fundo tão serena, as batidas descontroladas do meu coração apertado, a luz se apagou e estava na hora do espetáculo. Eu era a estrela que enfeitava aquele palco, coberto por rosas e pétalas amarelas, luzes como num arco-íris refletiam em meu corpo. Não era uma apresentação qualquer como a qual estava acostumada, mas sim para apenas um em especial - um príncipe. Este qual cruzaria meu destino naquela noite.
Controlei meus batimentos, meu pé direito automaticamente se
aliou com a perna em pose de bailarina, e o esquerdo firmou no chão como se
estivesse algo me prendendo ali, fechei os olhos e me perdi naquela sintonia,
onde minha alma deslumbrava o divino. Ora ou outra, ambas as mãos eram
estúpidas num flamenco árduo, em outros os pulsos folheavam naquela plenitude
tranquila, onde se encontrava em meu peito, naquele timbre que parecia arrancar
a dor do meu âmago. Simplesmente em outros sorria... Sorria para dentro de mim
mesma, elevando meu ego e charme naquela sensualidade inocente, traçando gestos
doces e brutos. Em certo momento aquele véu de seda caiu em meu rosto,
ocultando a minha face alva e maçãs rosadas, os olhos pintados numa figura
digital, naquele tom de verde esmeralda. Rodopiei o corpo, escorregando-me ao
chão numa oferenda aos deuses, eu estava tão envolvida e como estava. Já não
existia mais ninguém e nada, tudo pausou. Me entreti naquela cúpula de cristal
e por lá permaneci por horas, isso em meus pensamentos. Até que...
Até que cruzei com aquele olhar,
deixando o véu cair espontaneamente, e entre algumas batidas mais secas de
quadris e folheados agora mais tímidos, eu me perdi. De livre arbítrio, aquele
olhar me fez velejar num mar sem fim em questão de poucos segundos a melodia
cessou. Fiquei estática, sem alma, sem cor, porque o príncipe havia roubado
tudo isso de mim. Não esbocei reação e nem ele, mas um sorrisinho bobo nos
entregou. E nessa dança dos véus pude
ser embalada por um sentimento maior, algo que até hoje me dá combustão, algo
que me domina de forma única e tão forte, indescritível.
Algum tempo depois, descobri que
não eram somente os passos que me encaminhavam a um sonho que me inspirou, era
ele. O destino brincou comigo aquele dia e foi a melhor brincadeira que tive e
tenho até hoje. Naquela noite ele foi a minha maior vontade e é por isso que
até hoje eu me rendo a ele.
(Autoria - Cíntia Vieira. /Personagens fictícios. Narração em primeira pessoa).
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